Paixão Arde, Desejo Trai

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Meu Quer
A vida com seus lados... Num dos lados estão os entes queridos que se foram e agora pertencem a nossa ancestralidade. Deste lado da vida estamos nós, seres humanos, todos tão solitários... Sozinhos toda uma vida. Esta consciência é o despertar para a própria verdade essencial. A própria realidade do ser.

Todos sós a vida inteirinha, mas com as compensações do intelecto, muda tudo. Cada cabeça se transforma num mundo particular de solidão e contentamento.

Isto é suficiente? Pode ser.

Mas há algo bem melhor. Se alguém for tão sortudo e encontrar um lugar no seu mundo particular que com outra alma possa viver em solidão, é o êxtase do intelecto. É onde nos libertamos como condenados e passamos a gostar de cumprir a pena...

Dividir a solidão, mesmo em solidão.
Esta pode ser uma decisão delicada, medrosa, mítica, mas suprema e sublime. Partilhar a sua solidão com o outro.

Ah! Quão especial deve ser este outro. Que solidão complacente e permissiva deve ter este outro. Abrir mão de uma condição tão incompleta e indefinida e prazerosa, por uma outra ainda mais complicada, indefinida e prazerosa: só mas não sozinho, solitário, mas não só.

Quem entenderia isto? Quem sentiria isto a não ser aquela outra alma, faminta, sequiosa de um roçar de pele, de um cochicho ao pé do ouvido, um cafuné perdido no silêncio da outra solidão, mas encontrado no barulho da sedenta espera, da insistente tocaia, do inquietaste desejo. Um insipiente renascer. Assim terá o que desejar para sempre.

Sim há muitas almas para amar, mas não é com qualquer uma que se divide a solidão, não é qualquer uma que se sente o sempre desejar. O aconchego na hora da dor, a cumplicidade na hora do erro, o regozijo nas horas felizes... Querer ter e ter. Mas deixar lá... Só para ter o que desejar...

In: Prosa de Ibernise.
Barcelos (Portugal), 23NOV2015.
Ibernise
Enviado por Ibernise em 23/01/2018
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